Evasividade, superficialidade, distorção, crítica pela crítica. Disso, sabemos, o jornalismo está cheio. Grande parte desses problemas, não raro, advém de uma compressão idealizada (e portanto errônea) em relação ao papel do profissional e o trabalho de construção da notícia, o velho “mito da isenção”.
Como bem discute Bourdieu em sua obra “O poder simbólico”, tão mais eficiente é um poder quanto, de tão legitimado e naturalizado, menos se fizer percebido.Desse modo, o poder é aceito por não percebido e percebido por não aceito. Poucas definições descrevem tão bem o papel da imprensa na sociedade contemporânea quanto essa.
Ainda para Bordieu, um “discurso competente” é aquele que por razões culturais, sociais, políticas (que em última instância acabam por se tornarem razões ritualísticas, quase mágicas) é credenciado pela sociedade com um grau de veracidade, aceitação e respeitabilidade acima dos demais. É portanto um discurso considerado, a priori, como “competente”. A mídia, na sociedade contemporânea, é portadora do “discurso competente”.
Longe de discutir a dimensão filosófica e o desenvolvimento histórico do discurso liberal que sustenta o mito da isenção tão bem apresentados por Habermas quando da discussão do nascimento da esfera pública burguesa, chamo atenção para os problemas advindos dessa noção hoje quase hegemônica sobre o papel do jornalismo.
Para além da crítica político-ideológica, o mito da isenção cai por terra já na análise da narrativa. Organizar narrativamente o mundo é o elemento fundante da compreensão racional humana, essencialmente discursiva. Isso, claro, carrega de subjetividade o relato desde o momento da escolha de uma palavra em detrimento de outra até a hierarquização do que é ou não mais importante no discurso.
Para além disso, em uma sociedade midiática e mediada, de massas, a imprensa não representa a realidade, ela institui uma nova realidade a partir de tal representação. O debate político na democracia representativa se dá sobretudo na mídia e não existe sem ela. Mais do que arena desse debate, ela imprime seus próprios valores, pontos de vista, determinando assim, de modo ativo, o desenrolar dos acontecimentos e o rumo das decisões na sociedade.A mídia é um poder que influencia de modo determinante os rumos da sociedade sem ter sido eleita para tal, nem regulamentada como tal, ainda que responda a interesses específicos que jamais se auto-regulamentarão de modo equilibrado em relação aos demais interesses sociais.Daí a importância da regulamentação da mídia e do direito à comunicação.
Mas em termos práticos (a pergunta mais feita pelos colegas) o que isso significa para nós jornalistas? Significa que o que importa realmente é a consciência do papel de nosso trabalho como catalisador do debate na esfera pública e não como “a verdade isenta”. Conhecendo o poder simbólico da mídia, seu papel na sociedade, perigos e problemas disso advindos, estamos mais credenciados a deixar de lado o mito da isenção para abraçar o conceito da responsabilidade jornalística, derivado em última instância da boa e velha honestidade intelectual.
Entendendo que nosso trabalho não é “a verdade”, mas apenas um modo de apresentá-la (e representá-la), passamos a ter outra visão sobre o que é isenção no jornalismo. E derrubado o mito liberal da objetividade, estamos finalmente livres para fazer um trabalho honesto, que se permita ser questionado abertamente em suas premissas. Nenhum fato é apresentado sem premissas que organizam sua inteligibilidade.Deixar claro ao leitor quais são as suas é papel do repórter sério.
Se as premissas não estão claras, os fatos serão manufaturados ao bel-prazer dos interesses e conveniências político-economicas e disso, sabemos, o jornalismo está cheio. Enxergar o próprio fato como premissa é um erro; o erro que parte do mito da isenção e que, naturalmente, serve a manutenção de um status quo desigual e ao favorecimento do poder de poucos em relação a muitos.
Infelizmente as faculdades de jornalismo não tem chamado a atenção de seus estudantes para a questão. Pressionados pelo mercado e pelos próprios estudantes –ansiosos em ganhar para ontem um lugar ao sol no reino da reprodução técnico-jornalística– os currículos acadêmicos vêem minguar a cada reforma o número de disciplinas ligadas à formação cidadã e direito à comunicação e à dimensão teórico-epistemológica da comunicação para não falar da completa inexistência de disciplinas ligadas à História, fator determinante na compreensão crítica do desenrolar dos fatos. Um erro gravíssimo, na medida em que forma profissionais que servirão de modo acrítico a uma imprensa crítica. Vemos assim, a função social e intelectual de um curso idealizado para ser universitário se perder na ânsia da prática irrefletida de um curso desejado para ser técnico. Uma pena.








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